Mentor(es) (?)
Como alguns sabem, tenho a honra de ter sob orientação ocasionais "pupilos" a quem falta apenas um empurrão para resolver um determinado problema, geralmente do foro motivacional provocado por condicionamentos sociais, éticos e morais.
No entanto, e contra mim falo, vejo toda a indústria do "desenvolvimento pessoal" cada vez mais como um esquema "piramidal", mais ainda desde o advento da Internet e do cada vez mais evidente isolamente do "indivíduo" na sociedade, o que gera algumas questões pertinentes relacionadas com a auto-estima.
A Pirâmide
A maior parte dos "coachers" ou "mentors", a indústria do coaching, do mentoring, do desenvolvimento pessoal, do personal growth, os gurus, ou o que se lhes queira chamar (a mim chamam Álvaro), foca-se apenas nos pontos fracos, na tal estima em baixo: falta de dinheiro, gordura, falta de chegar longe no emprego, falta de status... e tudo o que tenha a ver com colocar a pessoa "alvo" ainda mais deprimida. A hipótese de acertar em alguma coisa "em baixo" criando uma falsa empatia, é relativamente alta.
No entanto, o que estes "génios" ensinam é como ganhar "massa" (guito, carcanhol, dinheiro) para conseguirem (os alunos) tudo o que quiserem (ensinam a quem lhes pagar), ensinando apenas a ensinar a outros exactamente o que estão a aprender (e mal). Ou seja, ganhas dinheiro a dizer a outros como ganham dinheiro, e passa para cá as verdinhas se faz favor.
Ridículo.
Um "génio" ensina um "tótó", que passa a "génio", e pode ir ensinar outros "tótós", pois basicamente a única coisa que aprende é "como convencer um tonhó a dar-lhe dinheiro e fazê-lo pensar que fez bem em lho dar".
Absolutamente ridículo, poluidor, destruidor e desvirtua a realidade que é na verdade o "crescimento" espiritual e mental real, porque existe, e sim, reflecte-se também, colateralmente, em benefícios financeiros, mas não são estes a meta, e quem tal lho diz, não é mentor nem coisa parecida nenhuma.
Porquê piramidal?
O "guru" na base sabe que recolhe "reputação", pois entre tantos "tristes" algum há-de singrar. E claro, todos estes gurus vivem em grandes mansões de meio milhão de euros para cima (leia-se um quarto chunga, alugado).
Alegam que viajam imenso a dar conferências a empresas que não podem revelar por motivos estratégicos (nem massa têm para ir ao café e vão dando conferências pela webcam a um ou outro mais triste e sugestionável).
Muitos têm suites com jacuzzi e sauna (já é uma sorte se isto for um eufemismo para lavatório e bidé) e a vida deles é tão tão boa que não se entende tanto franco esforço para "enganar" mais um, minuto após minuto, sublinhando sempre o quanto ganham (as moedas que encontram na rua e os cêntimos que um ou outro triste lhes possam arremeçar, que estouram logo em tintol).
É tudo treta?
Não, claro que não.
É óbvio que existem bons gurus. Que dão conferências. Que são genuínos, e cujos métodos resultam.
Existe também uma indústria de "coaching" mais orientada para empresas, e cujos métodos são sem dúvida educativos, e permitem algum crescimento pessoal, mas não deixa de ser uma fórmula para muitos casos, quando cada caso é um caso, e nada há a fazer quanto a isso.
O problema é quando alguém quer contratar (ou falar) com outro alguém que lhe possa mesmo ajudar a atingir determinado patamar de desenvolvimento pessoal ou espiritual, e na sua demanda, na sua procura, só encontra vigaristas que às vezes estão convencidos que estão mesmo certos (leram livros a mais de auto-desenvolvimento).
Precisa de um?
Na realidade sim e não, pois tendem a aparecer no percurso, sob a forma de amigos, mitos, símbolos, palavras e afins. Um mentor bom aponta-lhe tudo isto antes de embarcar numa demanda inesquecível de crescimento e diversão.
Como fazer para seleccionar um?
Seguir a intuição, depois de a dita ditar um "mentor", observar o estilo de vida, não tem necessariamente que ser riquíssimo ou requintadíssimo (mas ajuda), tem que ser "empático" sem ser simpático, sintonizar-se logo.
Em suma, deve fazê-lo sentir-se bem sem ser artificial, sem dar gás por umas horas e obrigá-lo na mesma a assumir as responsabilidades dando conselhos da treta que podem não ser possíveis seguir.
Um bom mentor aceita apenas um aluno de cada vez, e segue-o até ter a certeza que conseguiu, ou que não consegue.
Um bom mentor não faz publicidade, faz com que se passe a palavra, rejeita grande parte dos candidatos na pré-sondagem. Um bom mentor é usualmente excêntrico, individualista, com métodos inexplicáveis, e que imediatamente despoletam reacções, boas, más, mas nunca indiferentes.
A melhor maneira de se reconhecer um bom mentor, é que este parece educado e ao mesmo tempo sente-se que se o conhece desde há muito tempo - mas sem a componente de um bom charlatão que faz tudo parecer fácil e maravilhoso - um bom mentor sabe que não vai nem ser fácil, nem maravilhoso - mas divertido e agradável é sempre... E um bom mentor é absoluta e totalmente descomplexado, tanto que pode chocar.
Que ensina um bom mentor?
Nada.
Por experiência própria, assumo que dada a qualidade intrínseca de cada "pupilo", o mentor acaba por aprender com eles. Um bom "mentor" limita-se a fazer vir ao de cima o que os "pupilos" sempre tiveram lá dentro a implorar para sair - talentos em potência, força intrínseca, energia e luz.
É isso que um mentor concede, em cada contexto específico: liberdade e libertação no expoente máximo, com métodos muito pouco ortodoxos que dependem de cada "pupilo", pois, repito, cada caso é um caso e assim tem que ser.
O resto, o resultado, vem por acréscimo, sendo que, usualmente, é sempre muito mais e bem melhor que o que alguma vez se concebia - e algumas vezes radicalmente diferente, para melhor.
Conclusão
Se algo me tem sempre espantado, é o potencial humano, quando se permite que este se revele sem complexos. Se não houvesse tantos vígaros, tanta gente a tentar sacar massa sem saber depois o que fazer bem com ela, não tinha que andar a escrever estes posts a avisar a malta que não se deve focar no dinheiro, porque assim só o gastam...
... O resto, fica para os "pupilos", que sim, depois de achar que o cenário a "trabalhar" é coerente e consistente, pagam e muito bem - mas sigo muito mais paixões -remuneradas ou não - pois não é pelo dinheiro... é pelo que as pessoas ainda não sabem que é o que estão dispostas a dá-lo para "possuir" (metáfora complexa).
E termino com um absolutamente verdadeiro "ninguém é perfeito", e mesmo os "mentores" por vezes precisam de uns toques, e se de antigos "pupilos", é uma honra ver-se o aluno tornar-se mestre, e o mestre evoluir graças ao que "ensinou".
© Alvaro M. Rocha - Todos os direitos reservados

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