→ Eng. José Socrates - a polémica da polémica
Quanta tinta corre por tão "insignificante" questão, pelo menos, a de base.
Uma coisa é certa, muitos (se não todos) Eng. Tec. são realmente tratados por "eng.", assim como muitos (senão todos) os licenciados numa área que não relacionada com eng. são tratados com o prefixo "Dr.", a tal "cortesia" hipócrita, mas que a malta cá liga e prontos.
Nos states, "engineering" é aplicada ao conceito de "criar com cálculos, desenhar com regras", não sendo um grau académico, tanto quanto sei. Pode portanto intitular-se "Software Engineer" se fizer engenharia de software, e ter um grau "Master" em ciências de computação ou apenas um curso MSCE da Microsoft (Microsoft Certified Systems Engineer). Mas lá os prefixos limitam-se a "Doctor" tanto quanto sei, acho que nunca ouvi "Mr. Engineer".
Agora, Bolonha, a melhor coisa que podia acontecer a Portugal. Finalmente entendi como nos "States" têm tantos cursos em tão pouco tempo. No entanto ressalvo que acho que a qualidade de ensino pública em Portugal (Superior) é absolutamente incontestável - formámos cientistas (para exportação), esquecendo mais a parte leviana do ser prático e ir andando (tipo Eng. José Sócrates).
Deixem-me então iniciar por revelar a minha cor política: nenhuma.
Guio-me pelos programas, e pelo contexto em que vão ser aplicados, pelo talento dos candidatos (não o currículo) e siga para bingo... decido. Confesso que achava mais piada ao Dr. Santana Lopes, mais intuitivo e de melhor trato que o Eng. José Sócrates, sendo que este último, muito mais analítico, acaba na mesma por conseguir muito, criando mais atrito.
A táctica do "porreiro", do Dr. Santana Lopes, acabaria (como acabou) por fazer singrar "rebeliões" internas e invejas à caça de tachos que culminaram numa pressão brutal sobre o Dr. Jorge Sampaio - sendo que a não existirem "caças aos tachos", acreditaria mais na abordagem intuitiva e humana do Dr. Santana Lopes.
Mas é tempo de chicotear e disciplinar, a bem do futuro, um pouco como treinar os músculos para que estes cresçam, e nisso o Eng. Sócrates consegue, nos meandros de um feitio muito temperamental, a frieza necessária para levar com as balas e continuar em frente.
Penso que quem o colocou melhor foi o Historiador Dr. Pacheco Pereira, ao reflectidamente comentar que o Eng. José Sócrates foi um jovem deslumbrado. Quem o não seria?
E extrapolando: Quem não pagou para entrar numa discoteca? Quem nunca se tentou desenrascar de uma multa? Quem não tem telhados de vidro? Quem nunca mentiu num engate (ou exagerou)? Que esse alguém atire a primeira pedra... e para quê? Certo que podem não ser primeiro-ministros, mas... poderiam ser.
Óbvio que não acho nada do que está acima de louvar, mas não é essa a questão, pelo menos, para já.
Se o Eng. Sócrates não tivesse feito o que fez, não estaria onde está, independentemente do que tenha sido feito, desde que em consciência, calculado e sem prejudicar ninguém pelo caminho - usou os mesmos recursos que agora lhe conferem bons resultados - improvisou (contradigo a frieza analítica que disse que ele tem, mas isso não lhe retira poder de bom improviso).
E extrapolando novamente: Quantos não pagaram para poderem conduzir? (exames de condução) Quantos professores não implicaram com certos alunos? Constitui isso algo de válido para analisar o carácter de alguém?
E agora sim, o que está acima já se recheia de uma componente condenável, mas não é muitas vezes o próprio "meio social" mal pensado responsável pela típica habilidade "à portuguesa"? Não deveria também isso ser discutido? Mas desvio-me do assunto.
Investigue-se ou não, não é relevante para o presente do ponto de vista conjuntural - trata-se de oportunismo político - considero muito mais grave o que está a acontecer com os alunos da Universidade, e até com a mesma - tal o pânico com o que pode vir (ou não) à superfície.
Quem tiver que ter cartas nas manga, meus caros, se é que as há, e se é que alguém as tem (especulo gratuitamente), já as deve ter há muito tempo. E por isso, atenção, que acho que deve proteger-se a instituição e os alunos, muito bem, e a bem de todos.
E atenção que não estou a dizer que o homem mentiu ou não, ou que existe alguma mega-lula (polvo) à volta do que for, mas apenas a demonstrar o que pode levar à teia de teias de fios mal explicados.
Costuma-se dizer que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Acontece que o Eng. José Sócrates precisava ser lobo, vestir a pele, e chegou a lobo apenas para descobrir que a coisa mais importante que qualquer pessoa tem, e que tem que defender a todo o custo, é a reputação... de cordeiro.
Agora não é uma questão de carácter, mas de auto-defesa. Quem vai à guerra dá e leva.
Seja verdade, seja mentira, seja o que for, é irrelevante se formos mesmo ao cerne da questão.
O problema escalou de um compreensível "jovem deslumbrado que precisava subir degraus" a um inaceitável "inverosímel criador de falsas realidades". Alvo certeiro de oportunismo político que vai explorar o carácter, a reputação, atacar por aí, por muito mínimas que sejam as acusações (ou não).
Encontraram um calcanhar de Aquiles, não o facto em si, mas o efeito que tem no "guerreiro" Eng. José Sócrates, e vão atirar flechas envenenadas até o homem cair ou proteger os calcanhares (leia-se "calar-se"). Quanto disse, diz e disser vai ser usado contra porque estão aos tiros numa refinaria de petróleo, não é uma questão de quem (vai tudo explodir com todos lá dentro e fora), mas de quando, se continuarem aos tiros.
Se o curso é irrelevante, se foi favorecido ou não, não é isso do foro pessoal? Algo a investigar ao "cidadão" e pronto? Ou cada vez que o Eng. José Sócrates vai ao WC a malta topa se ele lava as mãos? Er... Este pode não ter sido uma analogia feliz.
O homem é medido pelo que faz, não pelo que diz. Ou disse.
Não revela falta de carácter querer ser mais que o que se é, apenas uma normal fraqueza humana. E a inveja alheia ataca porque se revê. O homem é Primeiro-Ministro, quantos Engenheiros o são? Quantos andam a passar fome? Não faz de ninguém mais rico o dito "canudo". Porquê tanta importância? O homem pode contratar os melhor engenheiros para conselheiros, porquê tanta importância? O porquê é a chave da defesa, o Eng. José Sócrates está a atacar como os Castelhanos em Aljubarrota, vai contra uns poucos munido de um exército para cair num buraco.
Mentiu para se vangloriar, poderão alguns dizer: vaidade, um doce pecado (mortal?). E continuamos a fugir ao "porquê" real. Mas quem nunca o fez (mentir) e não ficou depois apanhado num momento de entusiasmo nos subsquentes por causa de uma (na altura) mentira inofensiva dando depois o litro para a defender e tornar "verdade"?
Mas não estou a afirmar que o ministro mente ou não.
Qualquer político que se preze MENTE, e quem acha que não, não é deste mundo. A política é a arte de fazer a verdade usando as melhores e mais verosímeis mentiras. Sem mentir, não se sobe na política, porque se o povo ouvisse a verdade (e o Eng. José Sócrates diz algumas), jamais votaria em quem fosse...
Pode ter mentido, pode estar a mentir, ou não. Mas fez o que teve que fazer para apresentar a obra que hoje tem feita, dentro dos limites da consciência, da moral e dos valores do homem. Não era Primeiro-Ministro. Não tinha feito o que tem feito hoje. É preciso coragem para não só fazer o que tem sido feito, mas também para aguentar tais telhados de vidro, que todos temos.
Esta operação de contenção de danos revela por si só uma genial capacidade de gestão, embora, estando a resvalar (e a ser levada) para o lado pessoal, a emoção está a cegar o Eng. José Sócrates e o contraste stress/alívio/stress/alívio estão a levá-lo a cometer erros que poderão ser crassos. O alvo não é a sua pessoa, a sua pessoa é o ponto fraco para chegar a um alvo, e só é um ponto fraco acidentalmente descoberto que nem ponto fraco é não fosse a "pessoa" em causa, a sua personalidade.
Acredito que o genial Dr. Jorge Coelho (posso estar enganado, estou a especular) esteja de alguma forma a congeminar formas de gerir esta crise, tenho muita pena de o ver "afastado" pois tem um talento nato para "criar" realidades que fazem sentido. Tal como outros igualmente geniais, como o Professor Marcelo Rebelo de Sousa e o próprio Dr. Santana Lopes, todos abençoados com rara perspicácia diplomática e rapidez de raciocínio.
Se o Eng. José Sócrates reflectir, e analizar o comportamento da oposição, chegará à conclusão de que a montanha vai parir um rato: o pior que pode acontecer é pessoal, não é institucional - a dita "vergonha" que pesa mais na cabeça do dito ministro, que no povo, que se está nas tintas, mas que adora novelas. O povo tem que ser muito tonhó para achar que Eng. Civil é muito útil no cargo, e a tacanhez que pode ter sido o que em primeiro lugar levou um jovem entusiasmado a escrever "Engenheiro" leva igualmente outros tacanhos ao invejoso "eu não posso, mas tu também não". E continua tudo distraído do cerne da questão (a Universidade? a OTA? ou algo mais? Será que interessa?).
Claro que o que é pessoal é o que mais dói, mas é o que mais rapidamente o povo esquece - é um falso drama, irracional, porque envolve emoções. Por mais que o Eng. José Sócrates prove o que quer provar, bem ou mal, a dúvida vai sempre, sempre, sempre permanecer.
Que se alimente a dúvida, não as certezas. Que se proteja a reputação, e insistir no que pode ser provado de outra forma, pode arruiná-la. Silenciar, também. O desprezo é a melhor arma. Despreze-se o que se não pode ter, o que se não quer saber, e o pior que pode acontecer é perceber-se apenas... o desprezo. E que se espere, e espere, e espere... e espere.
Que o Eng. José Sócrates diga apenas "eu sou Primeiro-Ministro". E quanto ao resto, que se entenda com se quiser entender, fora da praça pública, que, perdoem a frontalidade, isto não parece nem dizer respeito aos problemas dos portugueses, nem às funções que ocupa, que não são relacionadas com Eng. Civil. Quem em vez de se preocupar em provar, o que resultará em mais ataques, que perceba o porquê destes.
Tudo bem que existem na blogosfera dúvidas razoáveis, mas deveriam ser dúvidas lançadas ao cidadão, por motivos claros (foram prejudicados?), e não um ataque cerrado à pessoa humana, que apesar de tudo, estamos a falar de um ser humano, com as suas fragilidades, o seu ego, os seus esqueletos no armário, e as suas qualidades... mas volto a fugir da questão fulcral - qual?
Quanto a mim, admiro a coragem, simpatizo com a gestão de crise, já quase sinto pena da devassidade que o próprio Eng. José Sócrates permite ao insistir provar o contrário. Se me disserem "olha, não sabes conduzir", eu respondo "sei". Se a pessoa insistir, mesmo muito, vou achar estranho e mandar a pessoa pôr-se na fila... que tenho assuntos mais importantes para tratar, de preferência, de Lamborghini.
Não deixem o homem em paz, mas atormentem-no com problemas nossos, não os dele.
Se o Eng. José Sócrates perceber de quem ou o quê os seus problemas são a solução, então terá encontrado o ponto onde estancar o ataque, diplomaticamente, de preferência. Também não sei se existe tal ponto nem tão pouco qual seria, especulo a meu belo prazer, tal como tantos o têm feito.
Não é uma boa altura para uma crise política, mesmo com contornos sombrios como a PT, OTA, OPA's, CDS, privatização da RTP e afins, numa coisa o ministro foi contundente: mudar agora é deitar ao lixo tudo o que já suamos.
E o povo que agora é "tão esperto", não consegue raciocinar e perceber "porquê agora, porquê isto, porquê"?... e porquê tanto silêncio e complacência da assembleia e dos media? E será que interessa?
Telhados de vidro todos temos... e explodir uma granada é uma coisa, uma bomba atómica é outra. Mas estou a especular descaradamente.
Prefiro o Dr. Santana Lopes, qual Scolari, admito, mas o Eng. Sócrates é o Mourinho que Portugal precisa agora, as alternativas são, francamente, tristes, no entanto, vem aí novamente o demagógico contundente sempre interessante Dr. Paulo Portas, e qui ça o próprio "Flopes" himself, e isto pode aquecer por razões com mais piada.
Abraços,
AMR
http://www.alvaromrocha.com
PS - Não apoio nem desapoio ninguém e sei que o que disse dá pano para mangas e que eu próprio poderei discordar daqui a cinco minutos do que escrevi e mudar de ideias, mas são assim as ideias: mudam, e a Internet parece estancá-las na parede e pronto.
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