Portugal é um sítio lindo.
Acreditem. Já viajei por quase todo o mundo (permitam o exagero, não conheço o meu actual quarteirão, quanto mais o mundo).
É com grande convicção que afirmo que Portugal é dos mais lindos e pacatos países que conheço onde a população, à parte dos seus talentos, sabe verdadeiramente viver e ensinar aos outros a arte para a qual cá estamos: gozar a vida.
À parte do charme que acredito que todos os portugueses têm latente - que faz de cada um de nós um artista inato com uma sensibilidade científica notável - esta característica quase infantil, no bom sentido, leva também a que o
dolce faire nienti seja algo mais desorganizado e laxista que o que seria desejável.
Onde pretendo chegar?
Literalmente, a lado nenhum, permitam-me que explique porquê.
Este fim-de semana tive a infeliz ideia de ir "passartar" sem destino, infeliz não pela ideia nem pelo passeio, mas por mais uma vez me tentar enganar e me fazer à estrada com a convicção de que todos os outros são - como eu (?) - civilizados.
Mais uma vez (e não será a última) cometi o erro de esquecer o que acontece quando um ser civilizado como eu encontra outro que se permite cometer uma "acção menos civilizada". Faz o mesmo ou pior.
Há muito que a minha paciência não me permite embarcar - sempre - em demandas competitivas irracionais, mas ainda há algumas quase conseguem irritar. É melhor explicar.
É natural enfiar-me a "penantes", ou de carro, numa demanda de fazer centenas de quilómetros só por fazer, passear ao ritmo das circunstâncias e vontade.
Quem me conhece teme quando digo que "vou dar uma volta". Este fim-de-semana foi ligeiramente diferente. Permiti-me convidar pessoas próximas para empreenderem na arriscada jornada de apreciarem
in loco a minha ousada condução.
Então partimos de lisboa... à deriva. Mas só o suficiente para um fim de tarde (empreendemos a jornada já bem depois de almoço). Então, como havia o Porto-Sporting em Alvalade (que o Porto venceu por 1-0), decidi evitar a Segunda Circular e apontar para a Praia do Guincho, pela marginal (para quem não conhece, recomendo, a vista é desafogada e a viagem normalmente agradável).
"Ok, vamos tomar um copo ao Guincho", pensei eu. Fiz-me à estrada, permitindo à malta apreciar a vista, pois - infelizmente - não podia acelerar muito, dado a imensidão de condutores de fim-de-semana.
Acrescento que ver por lá uns novos micro-postes amarelos a dividir as faixas, obriga a algum esforço visual - não é intuitivo (estão muito baixos), e é cansativo manter o veículo na faixa correspondente sem quase bater nos ditos.
Antes que me chamem nomes, sou um condutor consciente. Mais que o dito "normal". Muito consciente das leis da física. Muito experiente na arte competitiva de conduzir mas também na arte de interpretar o facto "saloio" do próximo alguns intantes antes de este se tornar nocivo.
Tal como todos os "tótós" que acham que isto chega - quase caio no mesmo erro. No entanto, penso que assumo o compromisso ideial, adaptando o estilo de condução ao meio circundante (inclui muitas variáveis) e ao que sentir, na altura, ser a "média" de experiência dos restantes utentes da estrada na altura (vou por instinto). Mas divago... adiante.
Depois de uma longa - mesmo longa - viagem para chegar a Cascais (!), qual não é a surpresa quando constanto que já não consigo levar as quatro rodas pela marginal da praia, sendo conduzido por infindáveis desvios, dentro de Cascais, não sei para onde. Rica recompensa pelo cansaço.
Ora isto iniciou o esgotar da paciência e obrigou a alterar ligeiramente os planos (algo me diz que tal decisão de cortar o trânsito não pode ter sido muito boa para o comércio local, acho que os carros não incomodavam).
A fadiga era já muita - surpreendentemente - (teríamos chegado mais depressa de bicicleta) e então decidi parar para uma pausa um pouco mais à frente, na Boca do Inferno. Uma paragem coerente com a situação, pois apesar do ar condicionado, a marcha lenta aqueceu os ânimos a lume brando a um ponto infernal. É preciso paciência de santo... e imagino para quem planear tal viagem propositadamente, não partilhando da nossa atitude de simplesmente ir à "aventura" e logo se ver.
E começa verdadeiramente a saga (típica).
Chegado à "Boca do Inferno" lá tive que entrar... ouvir a "Boca" berrar de sua justiça (bem, não ouvi nada, é uma figura estilo para tornar o texto atraente, o mar até estava calminho), e lá tive que sair (o meu tipo de "tour", rápido e eficiente, embora faltasse ver o tema principal... ops!).
E atenção que não falo de uns míseros poucos metros! Depois de entrar na Avenida, a malta ou estaciona, ou anda umas boas centenas de metros e depois é forçada a voltar aos arredores subúrbios de Cascais para tentar voltar novamente à dita Boca do Inferno, ou não... Não sou teimoso, mas sou convicto das minhas ideias, e lá insis... er... persisti.
Conclusão: nem um metro para estacionar.
Recorri à minha favorita táctica inteligente com muitos anos de estudo: improvisar!
Distorcendo um pouco o conceito de "código de estrada", lá fiz uns dois metros (metade do comprimento do carro) em contra-mão-discutível para conseguir um tímido espaço quase em cima do passeio. E leia-se: não havia nem fumo de mais sítio para "parquear" o bólide.
Lá saímos da viatura. Uff! Primeiro período de descanso e apreciação ao vivo do ambiente. Toca a esticar as pernas e dar aos calcantes. Aproveitei para improvisar umas fotos rápidas à Zé Povinho com patch de upgrade (com uma point & shot, nada de devaneios com aberturas, velocidades de obturação, distâncias focais, histogramas e equilíbrios de brancos, pena), e depois de espairecer, toca então a apontar para o Guincho, já regenerados.
Agora sim, íamos finalmente começar a diversão (lembrete: levar a SLR para a próxima).
E então lá nos fizemos novamente à estrada, na qual íamos apreciando a Quinta da Marinha, enquanto eu lá ia seleccionando um ou outro palacete para ponderar um (ou outro) investimento e fazendo as piadas típicas, para desanuviar (todas menos a "estou cheio de guito" e preciso aliviar a carga que é uma boa piada).
Normalmente não falo muito a conduzir, mas ao ritmo que a viagem seguia, podia ir à mala buscar coisas em "andamento" sem arriscar nenhum inconveniente.
E eis-nos chegados ao Guincho... carros nos lados, carros no meio, carros na areia... carros onde ninguém com juízo pensaria em colocar os carros, carros no ar (bem, se houvesse não estranharia) e resultado?...
Arre...
...'Bora para Sintra, "aqui - no Guincho - está ainda pior que na Boca do Inferno (havia um lugar a menos, o necessário) e a malta lá bebe um copo no centro típico da Serra", até porque nem é muito longe.
E lá continuamos, pelas divertidas - digo eu - lindas estradinhas tímidas secundárias, apontando ao Castelo dos Mouros. Foram umas boas dezenas de quilómetros por uma estrada de dois sentidos só com uma faixa que, associado ao meu estilo peculiar de condução, foi uma experiência (rápida e) inesquecível.
Com a adrenalina a correr pouco há de melhor que ver Sintra revelar-se, e com isto, o dito copo cada vez aparentar ser mais real... a sede já era muita.
E eis-nos em Sintra, embora estacionar...
...onde?
No meu bolso é que não era, se bem que com o guito que evaporou em gasolina, espaço lá não devia faltar. Uma voltinha para procurar sítio, duas, três e toca outra vez, embora ao parque... qual parque? Que filas são estas? Inverte marcha e pisga-te Maria... não há sítio, não há copos, não há pachorra. Vira Manel, timba Tono, 'bora que se faz tarde.
Azar... caíram-me os armazéns de esperma! Arre que não há pachorra.
Não posso (mas quero) estacionar no meio da estrada... (apesar de outros o terem feito), siga, siga, siga...
Sintra livra-se assim do meu considerável investimento na alimentação, após o Guincho assumir ao mesmo luxo, e rumo a Lisboa, convencido que mais valia nem ter saído. Mal por mal, sofria-se (?) mais perto.
O desânimo até era compensado com a constatação
in sito de que é impossível passear nesta zona (diz-me a experiência que qualquer zona), é mais tipo "chatear"(-me) na zona... 'Bora "chatear"(-mo-nos) até Sintra?
Mas enfim... siga para Bingo,
adios Sintra e a malta depois (?) bebe (?!) em Lisboa, brindando a estas mágoas. O estímulo era cada vez maior. A inteligência e contenção emocional de um daytrader, perdoem a imodéstia, conteve o ímpeto de
going balistic permitindo continuar uma boa, se bem que invulgar, experiência de condução.
Cereja no topo do bolo: trânsito no IC19 completamente parado, bloqueado, desviado pelo centro de Cacém. Aleluia, eu estava
finalmente estacionado (hurra!)! A 2 km de Rio de Mouro e no meio de uma auto-estrada! Quem diria... afinal até é possível estacionar em Lisboa.
A pachorra já não existia... Mas que inteligência rara pára o trânsito a um sábado numa tarde de um derby clássico decisivo para o campeonato?
Toca a sair em Rio de Mouro, pacientemente vendo "espertos" a fazerem os quilómetros pela berma e abstendo-me de fazer ainda mais por ficar sem carta. E em Rio de Mouro, toca a romar a... Sintra! Carcavelos, mais concretamente, mas era andar para trás.
Com tanto esforço para beber um copo, se me permitem o tom jocoso, não é preciso muito para implementar o slogan "se conduzir não beba", pois ficou claro que, quem conduzir, não vai beber de certeza, por muito que queira!
Bem, sempre era coerente com a sensação que já tínhamos de ver a vidinha andar em sentido contrário, e por entre toneladas de trânsito, lá conseguimos chegar a Lisboa, numa viagem de quatro horas, que faria em 20 minutos na minha terra Natal - com o meu estilo ousado, e carro a condizer, mas fazendo de tal uma experiência revigorante e tendo tempo, muito tempo, para apreciar a tal bebida.
Em Lisboa! Hurra, e até que enfim. Já não era sem tempo.
Lá fomos - finalmente - ao copo, nas Docas, onde, se fosse esperto, teria passado as ditas quatro horas.
O cansaço era tal que ficamos logo pelo primeiro bar, se bem que cinco euros por uma tosta mista chocou alguns dos presentes, mas já me habituei a ser explorado neste cidade onde pago ouro para me entreter e ali, convenhamos, até me entretenho (também).
Pesa na consciência a despesa em combustível, isto apesar de ter fundos associados ao petróleo me confortam quando abuso do pedal - ou abusam da minha paciência (engarrafamentos). Já é um roubo cada vez que passo numa gasolineira (sem caçadeira, a malta usa pistolas de combustível e mangueiras para extorquir a massaroca à malta).
Fica a experiência de termos tido uma
tour de carro que poucos fazem em tão pouco tempo, e com tanta intensidade, e escusado será dizer que nas "Docas", à excepção aqui do "Je", estava tudo de rastos a implorar por uma cama...
"Vá para fora cá dentro", dizem os slogans... pois! *sarcasmo* Depois de andar cá dentro, e embaraçar-me ao comprido perante a muito estimada companhia, só quero ir para fora... Finalmente percebo o dito
slogan, é na realidade, um inteligente estímulo ao turismo no estrangeiro.
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Alvaro M. Rocha - Todos os direitos reservados.
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